segunda-feira, 23 de abril de 2007






O EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTES – UMA INTRODUÇÃO
Prof. Denes Izidro © 2006[1]

O Evangelho de Judas é o livro apócrifo do NT descoberto mais recentemente, engrossando assim a controvertida lista de Evangelhos apócrifos do mesmo. Depois das descobertas de Nag Hammadi, em 1945, e Qumran, a partir de 1947, essa parece ser uma das mais importantes descobertas do mundo bíblico, mais especificamente do pano de fundo histórico do cristianismo primitivo. A descoberta do Evangelho de Judas concorre para uma maior compreensão do gnosticismo cristão do II século d.C. e para estudos do gênero.
Irineu de Lyon e o Evangelho de Judas

Foi graças à menção que Irineu, bispo de Lyon, fez ao Evangelho de Judas, c.180 d.C., em sua obra contra heresias (31.1), como material herético, que se tomou conhecimento da existência desse Evangelho gnóstico. Contudo, até a descoberta da tradução copta do Evangelho de Judas, nada mais se sabia a respeito dele. O que fez com que permanecesse na lista de obras que nos são conhecidas apenas por esparsas citações dos pais da igreja.[2] A descoberta desse manuscrito, portanto, vem confirmar a exatidão de Irineu e confirmar também a própria autenticidade do referido manuscrito. A seguir a referida citação de Irineu ao Evangelho de Judas:
“outros ainda dizem que Caim deriva da potência suprema e que Esaú, Core, os sodomitas e semelhantes eram todos da mesma raça dela; motivo pelo qual, mesmo combatidos pelo criador, nenhum deles sofreu algum dano, porque Sofia atraiu a si tudo o que lhe era próprio. Dizem que Judas, o traidor, sabia exatamente todas estas coisas e por ser o único dos discípulos que conhecia a verdade, cumpriu o mistério da traição e que por meio dele foram destruídas todas as coisas celestes e terrestres. E apresentam, à confirmação, um escrito produzido por eles, que intitulam Evangelho de Judas (o grifo é meu).”[3]

A descoberta do Manuscrito Egípcio

O códex que contém o Evangelho de Judas foi descoberto por volta de 1978, no Egito, e contém 66 páginas. Além do Evangelho de Judas esse códex contém outros três livros de natureza e produção gnóstica: Carta de Pedro a Filipe, Tiago (talvez o Apocalipse de Tiago) e Allógenes. O códex foi descoberto por um desses caçadores de antiguidades em uma das cavernas próximas a El Mynia.
Após a sua descoberta o códex tchacos, como ficou conhecido, circulou entre negociantes de antiguidades no Egito, Europa e EUA. Nos EUA, após muitas tentativas fracassadas de negociação, o códex ficou depositado em um cofre, em Nova York, por cerca de 17 anos, até que Frieda Nussberger Tchacos, uma negociante de antiguidades, o comprasse em abril de 2000. Depois de várias tentativas insólitas de negociação e após perceber o estado de deterioração dos manuscritos, Frieda o encaminhou à Fundação Maecenas de Arte Antiga, em Basiléia, Suíça, em Fevereiro de 2001, para a restauração, tradução e publicação dos manuscritos. A Fundação então desenvolveu o projeto em parceria com a National Geographic Society.

Características do Manuscrito Copta do Evangelho de Judas

O manuscrito do Evangelho de Judas foi escrito em língua copta (antigo idioma egípcio) em papiro, e possui 26 páginas, escritas frente-verso. O original desse Evangelho deve ter sido escrito em grego, segundo indícios lingüísticos no próprio documento[4], e pertence ao II d.C. Portanto, o manuscrito que temos do Evangelho de Judas é uma tradução copta de um original escrito em grego. O manuscrito deve datar de 220 à 340 d.C, conforme resultados de testes de autenticação do manuscrito, embora alguns estudiosos preferem datá-lo para o final do IV século[5] d.C. Devido às condições desfavoráveis do códex, de antiquários à antiquários, o manuscrito se deteriorou muito originando grandes lacunas em suas páginas, o que dificulta e até mesmo impede a sua leitura em alguns pontos do texto.

A Restauração do Manuscrito

A permanência do manuscrito do Evangelho de Judas no deserto, sob condições favoráveis à sua preservação, de fato o manteve intacto por cerca de 1700 anos. Contudo, o mesmo deteriorou-se grandemente por ter ficado 16 anos em um cofre, em Nova York, nos EUA, até a sua aquisição por Frieda Tchacos. Como conseqüência disso, todo o códex se despedaçou em quase mil fragmentos, ocasionando muitas lacunas no texto e grandes dificuldades para sua restauração. Diante do estado de deterioração e desintegração do códex, um trabalhoso processo de restauração do manuscrito teve de ser iniciado. Os estudiosos convocados para restaurar e traduzir o codex foram Rodolfo Kasser, Gregor Wurst e Florence Darbre, os quais trabalharam por cinco anos remendando e traduzindo o conteúdo dos manuscritos. Pelo menos cerca de 85% do manuscrito de Judas pôde ser restaurado com sucesso. O códex em si parece ter uma lacuna de 42 páginas faltando, pois além das 66 páginas do códex descobriu-se mais recentemente um fragmento no qual a página 108 parece aparecer. Se isso for verdade, pelo menos 42 páginas estão faltando do total do códex copta. Não obstante, essa lacuna não se refere a nenhum dos quatro tratados encontrados no códex tchacos, mas a outros livros.
Autenticação do Manuscrito

Devido a grande quantidade de falsificações de artefatos antigos, para não correr o risco de ter nas mãos mais uma falsa antiguidade[6], vários testes de autenticação foram feitos no codex tchacos. Os testes de Radiocarbono ou Carbono 14, análise da tinta do manuscrito, análise Multi-espectral Computadorizada, análise paleográfica, contextualização de conteúdo e lingüística, comprovaram de fato a veracidade da descoberta e a sua datação – III ou IV séculos d.C. Vários estudiosos de diversas confissões e nacionalidades foram contratados para analisar e avaliar o manuscrito, desde coptólogos preeminentes como Rodolphe Kasser até estudiosos de Novo Testamento como Donald Sênior, SJ, e Craig Evans, e especialistas em gnosticismo como Elaine Pagels e Stephen Emmel.

Tradução e Publicação do Manuscrito

O Evangelho de Judas foi traduzido para o inglês pelos estudiosos de língua copta Rodolphe Kasser, Gregor Wurst e Marvyn Mayer. A National Geographic Society, então, publicou, em 6 de abril de 2006, em um único volume a tradução do Evangelho de Judas em inglês com introduções pelos editores e tradutores acima citados, incluindo Bart Ehrman, explicando a condição do codex, a relação do Evangelho de Judas com a literatura cristã antiga e noções gerais sobre outros textos gnósticos antigos. O Evangelho de Judas deve ser traduzido também para o francês e o alemão muito em breve.
O Conteúdo do Evangelho de Judas

O texto na verdade é uma coletânia de diálogos de Jesus com seus discípulos, especialmente Judas. Jesus tem pelo menos seis diálogos particulares com Judas Iscariotes nesse Evangelho. Sem dúvida, Judas Iscariotes, o “traidor”, é apresentado nesse Evangelho não como um vilão, mas como um verdadeiro herói e facilitador da Salvação. Judas se distingue dos demais discípulos como o mais iluminado e mais importante deles – é o único que compreende quem Jesus é realmente. Somente Judas é capaz de receber os mais profundos ensinamentos e revelação de Jesus. Ele foi escolhido pelo próprio Jesus para sacrificar o corpo físico de Jesus e libertá-lo da roupagem carnal que o prende e limita.[7] O Evangelho começa com uma indicação de Judas como o privilegiado receptáculo das revelações secretas de Jesus: “o relato secreto da revelação do que disse Jesus em conversa com Judas Iscariotes..” e, conforme assevera Craig Evans, um dos estudiosos desse Evangelho, “O Evangelho de Judas relata o que quer relatar: a obediência de Judas e como esta obediência ajuda Jesus a cumprir sua missão de salvação. Judas é transformado de vilão a herói, de traidor a santo.”.
Autoria do Evangelho de Judas

Não há dúvidas de que o Evangelho de Judas não foi escrito por ele mesmo, mas por uma seita gnóstica cristã do II século d.C. designada por Ireneu como Cainitas, isto é, seguidores de Caim. Eles se identificavam com os vilões do Antigo Testamento. Faziam isto porque acreditavam que o deus deste mundo, o criador, o deus do Antigo Testamento, em grande contraste com o Deus de luz do alto, é mau. E qualquer pessoa que o deus criador desse mundo, o demiurgo, que odeia e tenta destruir – como Caim, Esaú e os sodomitas – devem ser pessoas de bem, pessoas do lado do Deus de Luz. Todos aqueles que de alguma forma fossem contrários ao deus mau do AT, eram bons e servos do verdadeiro Deus. O Evangelho de Judas concorda com este tipo de perspectiva e é, portanto, uma distorção gnóstica da traição de Jesus.

Valor e Contribuição Histórica do Evangelho de Judas

O Evangelho de Judas está em posição diametralmente oposta a dos Evangelhos canônicos no que diz respeito ao papel de Judas Iscariotes na crucificação de Jesus. Pois enquanto os Evangelhos bíblicos apresentam Judas como traidor (Mc.14.10,11), Mercenário (Mt.26.14-16), Ladrão (Jo.12.4,6), Diabo (Jo.6.70,71) e endiabrado (Lc.22.3-6;Jo.13.2), o Evangelho de Judas o apresenta como o maior dos discípulos e facilitador da salvação. O único que reconhece Jesus e compreende o seu ministério. O ajudador de Jesus no plano de salvação. Neste aspecto, o Evangelho de Judas é pura ficção herética e não diz respeito ao Jesus histórico ou ao Judas histórico.
Não obstante, o valor histórico do Evangelho de Judas em outros aspectos precisa ser esboçado. Devido seu teor herético e pouco histórico, esses livros apócrifos têm sido prontamente e irrefletidamente desprezados. Contudo, tratados apócrifos como o Evangelho de Judas podem ter alguma contribuição a dar no campo dos estudos sobre o Jesus Histórico e a Igreja primitiva. O valor e a contribuição do Evangelho de Judas para a pesquisa do NT não deve ser ignorada.
Não podemos ignorar a importância dessa descoberta para o estudo do cristianismo primitivo em pelo menos dois ângulos. Primeiro, o Evangelho de Judas nos mostra o quanto o cristianismo primitivo era diversificado e não monolítico. A disputa entre ortodoxia e heresia nos primórdios da igreja das origens fica cada vez mais clara a partir de descobertas desse tipo. O Evangelho de Judas deve nos ajudar pelo menos no estudo da história das heresias da Igreja cristã primitiva. E em segundo lugar, nossa compreensão do gnosticismo contemporâneo à igreja primitiva se aprofunda um pouco mais através de um provável exemplar do Gnosticismo Sethiano, configurado no Evangelho de Judas, e que surgiu após 70 d.C.
Não obstante seja improvável que o Evangelho de Judas possa acrescentar novos conhecimentos à relação de Judas com Jesus ou mesmo ao Jesus histórico, talvez o mesmo contenha elementos de tradição que possam servir a exegetas e historiadores para uma compreensão melhor desse controvertido discípulo.

[1] Denes Izidro é Pastor evangélico e estudioso de Novo Testamento, desenvolvendo pesquisas na área de Bíblia e literatura cristã primitiva canônica e não-canônica. Além disso, é também professor de Língua, Literatura, Contexto e Teologia do NT, e outras disciplinas na área de Bíblia e seu contexto histórico-literário, na Faculdade Teológica Cristã do Brasil (DF).
[2] Obras gnósticas como o Evangelho de Eva ainda nos são conhecidas apenas por citações dos antigos pais eclesiásticos.
[3] Irineu de Lião, contra as heresias: Denúncia e refutação da falsa gnose. Paulus: 1995.2ª Edição.31.1.
[4] Segundo Marvin Meyer , estudioso que ajudou na reconstrução do códex tchacos, o tipo de copta usado no Evangelho de Judas é típico de traduções oriundas do grego.
[5] O coptologista Stephen Emmel datou o códex, a primeira vez em 1983, quando de seu primeiro contato com os manuscritos, para o IV d.C. E não obstante a datação do Carbono-14 para o Evangelho, entre o III e IV d.C., Emmel insiste que o manuscrito pode ser mais tarde ainda – o final do IV d.C.
[6] O caso mais recente de falsificação de artefatos antigos diz respeito ao Ossuário de Tiago, Irmão de Jesus, em 2002, onde ficou constato que não passava de uma grande fraude.
[7] O texto do Evangelho de Judas diz assim: “você excederá a todos os demais. Você irá sacrificar o homem que me veste.”

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